CSI Las Vegas X CSI Curitiba

“Em uma cidade em que a indiferença sobre o outro prospera, uma garota é encontrada. Cabelos loiros, unhas feitas, corpo rígido, olhos espantados. Os peritos chegam ao local.”

Tal história poderia ser o começo de um novo episódio de CSI, assim como poderia ser um novo caso para o Instituto de Criminalística de Curitiba. A cena é a mesma, muda o que vem depois. Em Las Vegas, a área estaria isolada dos cidadãos com fitas amarelas “Do Not Cross” e os peritos chegariam com seus kits de alta tecnologia para analisar o local. Em Curitiba, a vítima estaria coberta com um lençol, os cidadãos estariam praticamente pisando nesse lençol e os peritos chegariam com seu kit básico e sua criatividade.

A maioria que assiste ao seriado sabe que muito do que é mostrado no programa é fantasioso. Para fazer sucesso, uma atração deve cativar o telespectador com tramas interessantes e personagens bem desenvolvidos. Por tal motivo, alguns aspectos são mostrados de maneira errônea. No entanto, quando se faz uma comparação do que o show apresenta com a realidade curitibana, percebe-se que há muitos fatores em comum, desde a técnica de recolher uma impressão digital até máquinas tecnológicas para fazer a análise de drogas e álcool.

Deve-se levar em conta, entretanto, que alguns fatores são diferentes devido à legislação do país. Um exemplo é que nos EUA quem libera o corpo da cena do crime é o legista, no Brasil é o próprio perito que está no local.

Procedimento

No seriado, quando o CSI (criminalista norte-americano) chega ao local, ele observa a cena, fotografa o corpo e as evidências à sua volta e, depois que o corpo é liberado, ele colhe tudo que acha significativo.

A realidade não foge muito disso. O maior problema é que em Curitiba há quase sempre a contaminação da cena do crime. Se o corpo não é movido, é coberto por alguma coisa, ou as pessoas ficam muito perto da vítima – pisoteando o local e destruindo provas. No entanto, o perito faz o que pode. Ele também observa e tira fotos (no programa são usadas máquinas fotográficas digitais semi-profissionais para fotografar o corpo. Em Curitiba, máquina digital normal) e depois colhe evidências. Outra diferença é que os CSIs têm plásticos e frascos específicos para colher as provas e em Curitiba, os peritos usam praticamente qualquer coisa para coletar amostras. Alguns usam sacos plásticos ou até mesmo as próprias mãos; os mais organizados usam pequenos plásticos individuais. Incrível é a sorte que os criminalistas de Las Vegas têm quanto ao recolhimento de evidências. Tudo que eles coletam é significativo para o caso, infelizmente, nossos peritos pecam com essa falta de sorte.

Embora cada CSI tenha uma especialização em sua ficha, todos eles são experts em todas as áreas, seja balística, química,genética molecular forense ou papiloscopia. Sem contar que eles também atuam como policiais e detetives. Nossos peritos possuem certa liberdade de transitar entre algumas áreas, mas não tanto como é mostrado no show. Também não atuam como detetives ou policiais, ainda que tenham porte de arma. É difícil um perito acompanhar um caso do começo ao fim. A maioria faz o exame que está na sua área e passa para frente. Os únicos casos com que eles têm mais contato são aqueles com repercussão na mídia.

Diferente do programa, no qual os CSIs sempre investigam a casa da vítima, os peritos curitibanos só fazem isso se a casa é a cena do crime. Caso contrário, é trabalho dos investigadores. E ao fazer a perícia na residência, os criminalistas acendem as luzes, algo que aparentemente não passou pela cabeça de Grisson ou Catherine .

O líder do grupo de CSIs é conhecido por seu trabalho como entomólogo. Isso significa que ele estuda os vermes e insetos que estão perto do corpo para saber, principalmente, a hora da morte da vítima. Os peritos curitibanos usam a mesma técnica. Todos possuem alguns tipos de termômetros, mas não há nada melhor e mais confiável que a natureza em si.

De fato as câmeras de vídeo são usadas nas investigações. Em Curitiba não há tantas câmeras espalhadas pela cidade como em Las Vegas, mas ainda assim elas ajudam. E por incrível que pareça, a imagem pode sim ser aumentada várias vezes, até se adquirir uma placa ou algo que identifique um suspeito.

Outra coisa que não acontece na realidade é o fato dos cinco CSIs sempre estarem trabalhando juntos, embora peguem casos separados. No Instituto há certo número de pessoas trabalhando em cada área e são principalmente essas pessoas que vão estar juntas diariamente, fazendo a maioria do trabalho individualmente.

Balística

Essa é uma área em que são usadas as mesmas técnicas de análise de projéteis em praticamente todos os lugares. Para ligar um projétil a certa arma, é preciso observar dois tipos de características da bala: a de grupo e a individual.
Nas características de grupo o que se observa é o calibre do projétil, que é medido por seu diâmetro (um diâmetro de 9mm significa um calibre de 9mm). Isso reduz a busca, pois após descobrir o calibre, sabe-se que marca ou marcas são suspeitas.

Depois de apreender uma arma suspeita, é preciso observar as características individuais da bala. Quando a arma dispara um projétil, ele passa pelo barril da arma, criando estrias específicas. O perito irá disparar a bala da arma suspeita em um tanque de água para que possa comparar as duas balas (a da arma suspeita e a recolhida na cena do crime ou do corpo da vítima) em um microscópio comparador. As estrias de um projétil são únicas, como impressões digitais. Se ambas as estrias forem iguais, a arma é a mesma.

A única diferença na área da balística de CSI é que eles possuem alguns lasers que são usados na cena do crime para calcular o ângulo e a trajetória da bala. Também possuem pequenas varetas que são colocadas no corpo da vítima para o mesmo propósito.

AFIS/CODIS

Nos Estados Unidos há um grande banco de dados contendo impressões digitais e DNA de várias pessoas. O sistema digital AFIS contém as impressões digitais de empregados de grandes empresas até criminosos condenados. O CODIS segue o mesmo padrão, mas no lugar de impressões digitais, é o DNA da pessoa. Esse banco possui menos pessoas, sendo que a maioria é criminosa.

O Brasil ainda não possui um banco de dados como os EUA, mas um programa semelhante já foi iniciado. Até que seja mais desenvolvido, a única maneira de comparar uma impressão digital ou DNA achado na cena do crime é se houver um suspeito.

DNA

Na maioria dos casos, os CSIs encontram manchas de sangue, cabelo (com o bulbo) ou qualquer outra evidência que possua DNA. Eles recebem o resultado em menos de um dia e, se não obtiverem nenhum resultado no CODIS, no final é sempre achada a pessoa que pertence tal seqüência genética.

O resultado de DNA nunca é obtido em menos de dois dias. Um teste de paternidade demora em torno de três dias, enquanto a análise feita a partir de uma amostra óssea pode levar meses.

Outro fato é que nem sempre é achado DNA na cena e em alguns casos, ele não é fundamental para a resolução. No entanto, o procedimento mostrado é acurado.

A primeira coisa a se fazer é extrair o DNA da célula, usando uma solução de lise. A solução quebra a célula e o núcleo, liberando o DNA. Em seguida, o DNA é colocado em uma máquina chamada de PCR, a qual irá copiar os marcadores milhões de vezes (a porcentagem que diferencia um ser humano do outro é de 0,01%. Marcadores são utilizados para destacar partes do DNA características daquela pessoa). Uma vez amplificados, os marcadores precisam ser ordenados por tamanho em um analisador genético. O DNA irá percorrer um pequeno tubo – quanto menor o marcador, mais rápido ele chega ao final do circuito. Um laser detecta quando cada marcador sai do tubo e transfere essa informação para o computador, que produz um gráfico com os picos de cada marcador. Cada amostra de DNA utiliza 13 marcadores, no Brasil usam-se 15.

Impressões Digitais

Assim como na balística, não há segredo sobre a papiloscopia. Os CSIs passam um pó sob superfícies suspeitas e, se houver uma impressão, eles a retiram. A diferença cai sobre o material utilizado para colher a impressão. No programa, há um tipo de papel adesivo específico para colher a impressão, em Curitiba é usado durex mesmo.
A impressão recolhida no seriado passa pelo scanner e é jogada no programa AFIS para ver se há alguma combinação. Os peritos curitibanos fotografam a impressão usando um microscópio e usam a técnica manual para fazer a análise (a qual só pode ser feita se houver uma impressão digital de um suspeito para comparar).

Química

Nessa área, os peritos curitibanos analisam na maioria das vezes drogas, mas não deixam de analisar sangue e sêmen.
Para ponderar a quantidade de álcool em algum líquido, os peritos de Las Vegas e de Curitiba utilizam a mesma máquina. O sistema consiste em evaporar o álcool do líquido e analisá-lo.

Quanto às drogas, o seriado mostra que primeiro é feito um teste chamado Elisa para saber se há vestígios de drogas na amostra. Esse teste somente mostra a classe de uma droga, como anfetaminas e barbituratos. Para saber qual é a droga em si, a amostra deve passar por uma máquina chamada GC/MS. Em Curitiba, os peritos usam a mesma técnica, mas pulam a etapa do teste de Elisa e colocam a amostra direto na GC/MS.

Vale lembrar também que são os químicos quem passam luminol na área se necessário. Os peritos que vão até a cena do crime não carregam esse produto.

Retrato Falado

Quando uma vítima sobrevive a algum tipo de crime, o perito prosopográfico é chamado. No programa, o profissional faz o retrato falado digitalmente. Na realidade, a técnica digital está sendo abandonada, mesmo nos Estados Unidos. Quando o desenho é feito manualmente, ele corresponde mais ao suspeito.

Outra técnica mostrada de vez em quando na série é a reconstituição facial feita em cima do próprio crânio da vítima. Não é feito mais isso porque atualmente existem programas de computador que fazem essa reconstituição digitalmente.

Repercussão

Alguns estudiosos americanos acreditam que exista um “efeito CSI”. Alguns jurados assistem ao programa e acham que tudo aquilo é verdade e na hora do julgamento, eles exigem níveis de provas físicas nada razoáveis. Eles querem que todos os casos possuam impressões digitais e DNA, mas não é assim que funciona. Há um caso na cidade de Baltimore (EUA) em que o júri absolveu um homem na acusação de assassinato por falta de provas físicas. Os advogados culparam o “efeito CSI” pela não convicção do acusado.

Embora haja um descontentamento de alguns profissionais quanto a esse suposto efeito, nada nunca foi provado. Aliás, já foi comprovado que houve um aumento na procura por cursos forenses tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Já foram inseridas matérias específicas sobre a criminalística em algumas faculdades brasileiras. E se há uma maior procura por cursos, significa mais profissionais na área, o que nunca é demais.

Ninguém pode discordar que CSI é um programa de sucesso. Não faz mal algum gostar da série, só não pode levar tudo que aparece na tela ao pé da letra.

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13 Responses to CSI Las Vegas X CSI Curitiba

  1. Muito bom. Muito… bom… mas também, quem foi que escreveu?

  2. Adorei o post. Sou muito fã da série e realmente dá até vontade de trabalhar com isso por achar que tudo vai ser tão fácil e interessante como na TV.

  3. Valéria disse:

    Adorei…bem fundamentado!!
    Só faltou mencionar o autor do texto!

  4. Al3x disse:

    Parabéns à autora, Val, veja na página principal a autora do blog assinano. Carol, alguns peritos utilizam cãmeras profissionais aqui em Ctba também, rsss.

  5. Valéria disse:

    Parabéns Camila…

  6. Lila disse:

    Muito bom o texto, porém preciso citar quanto ao sistema AFIS. Segundo a matéria da Gazeta do Povo ( http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?id=939596 ), o Instituto de Identificação do Estado do Paraná já implantou o AFIS e está na fase de passar as fichas datiloscópicas antigas para o sistema.

  7. Pri disse:

    Quanto ao AFIS, ele encontra-se implantado no Instituto de Identificação do Paraná, e em breve as fichas antigas, que estavam em papel serão transferidas para o sistema. http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?id=939596

  8. camilapicheth disse:

    Fico feliz que vocês tenham gostado do conteúdo.
    E só para esclarecer, quando escrevi a matéria, o projeto do AFIS ainda não tinha sido implantado no Instituto.

  9. Shi Lua disse:

    Muito interessante seu post. Cheguei até ele justamente procurando quando tempo em média demora um teste de DNA pois estou inconformada com o caso da menina Alessandra, de Angra, cujo exame deve demorar 60 dias para ficar pronto. Durante este tempo, o pai angustiado que já enterrou a esposa e mais 5 filhos, aguarda o laudo para saber se o corpo no IML é de sua menina. Triste demais!

  10. Jessi disse:

    Não concordo concordo com esse texto

  11. Jessi disse:

    Não concordo concordo com esse texto E moro em curitiba

  12. Eduardo disse:

    Gostaria de postar um comentário sobre o retrato falado. Quando foi feita esta matéria 2010, o retrato digital ainda não era uma realidade no Paraná. Á partir do fim de 2010, foi implantando o setor de representação facial do IIPR e hoje (3 anos depois) ele acumula mais de 500 retratos elaborados. O trabalho é muito elogiado no meio policial pela sua similaridade com o suspeito e muitas vezes é idêntico ao procurado, inclusive por retratar sua cor de pele. Hoje é referência e muitas vezes os técnicos do II são chamados para refazer o desenho manual, que na verdade não é um desenho artístico e sim uma cópia das peças que o declarante escolhe em kits de transparências. Sendo assim, as técnicas são teoricamente iguais, pois ao invés de escolherem partes faciais desenhadas, são escolhidas peças em fotografias reais e podendo utilizar o maior banco de imagens que existe, a internet. O tempo de execução é o mesmo, e o digital tem ainda a vantagem de estar em um arquivo eletrônico facialmente enviado hoje em dia por smartphones ou por sms.

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