Haven: Uma Questão de Identidade

20/09/2012

A 3ª temporada da série baseada no livro The Colorado Kid estreia nessa sexta-feira nos EUA, e com ela, a promessa de responder muitas perguntas. Se você acompanha Haven, sabe que não é apenas a cidade que esconde segredos, mas também a protagonista. Quem é a verdadeira pessoa que ajuda os cidadãos com suas aflições? Audrey Parker? Lucy Ripley? Sarah? O que faz um indivíduo ser ele mesmo? Seu corpo, sua psique, suas memórias ou algo mais profundo?

Foi lendo sobre Doctor Who que me deparei com um capítulo muito interessante do livro Doctor Who and Philosophy, em que é feito um ensaio com vários artigos debatendo sobre a personalidade do Doutor – o que faz ele ser o Doutor regeneração após regeneração. Embora os textos sejam sobre várias pessoas como apenas um indivíduo, as informações apresentadas são o suficiente para debater outro assunto: uma pessoa como vários indivíduos. Na 2ª temporada de Haven, Audrey descobriu ter as memórias de uma agente do FBI (além de outras duas pessoas antes disso), fazendo-a se perguntar quem realmente é ela. Podemos trilhar pelo senso comum e dizer que a identidade se dá pela forma física. Afinal de contas, não é assim que você reconhece seus amigos na rua? Dessa forma, a personagem de Emily Rose não seria Audrey, Lucy ou Sarah. Caso encerrado. Mas se fosse assim, se a “verdadeira” Audrey Parker fizesse mechas, engordasse alguns kg e fizesse uma plástica no nariz, ela também não seria mais Audrey Parker. Isso também significaria que gêmeos seriam a mesma pessoa e que, se alguém na cidade pudesse se transformar em qualquer pessoa, ele deixaria de ser ele e seria a pessoa em questão. Obviamente, ter o mesmo corpo não é a solução.

Vamos deixar a parte física de lado. De acordo com o filósofo Derek Parfit, a identidade se dá pela conectividade psicológica, pela sua  continuidade. Na sua visão, um indivíduo existe como um clube ou um título – não é seu corpo que o define, mas um conjunto de ideias (por exemplo um presidente. O Brasil já teve 36 pessoas exercendo essa função, mas todos eles dão lugar a uma linha contínua que é “o presidente”). Considerando a sua teoria, se Simon Crocker tivesse matado a Lucy Ripley “original” enquanto Audrey estava com as suas memórias, Lucy continuaria viva por meio daquela que sobreviveu. Mas coloque-se no lugar dela. Imagine que você se encontra com uma pessoa que é psicologicamente igual a você. Um estranho chega no local e diz que vai te matar. Você fica tranquilo sabendo que a outra pessoa vai sobreviver? Não, você fica desesperado porque sabe que, embora a outra pessoa possua suas ideias, você vai morrer. Então a solução também não é a continuidade. Quem sabe a resposta seja de fato as memórias. John Locke descreve no Ensaio Sobre o Entendimento Humano uma teoria que leva em consideração tal critério. Basicamente, se você lembra, você é. Nesse ponto de vista, a protagonista genuinamente é Audrey Parker, e antes disso realmente foi Lucy e Sarah. Mas há um problema com essa teoria. Vamos dividir a vida de uma pessoa em três partes: sua infância, sua vida adulta e seus anos como alguém idoso. Até sua vida adulta, essa pessoa lembra de sua infância, fazendo com que sejam a mesma pessoa. No entanto, ao envelhecer, ela pode esquecer dos seus primeiros anos de vida. Isso significa que a pessoa idosa não é a mesma quando era criança? E nos casos de amnésia? Ao perder sua memória a pessoa perde sua identidade? Isso nos leva a considerar que haja um fator a mais. Um fator que chamamos de alma.

A teoria Junguiana afirma que ninguém nasce tabula rasa. Se fosse assim, todos os bebês se comportariam da mesma maneira. Eles podem agir num mesmo padrão, mas as sutis diferenças seriam relacionadas com algo que já veio com eles. Platão e Descartes defendiam a ideia da alma: algo imaterial responsável por suas decisões, credos e personalidade. O problema teórico da alma é o cérebro. Os cientistas já estudaram vastamente esse órgão, e até mapearam suas áreas. Dependendo a parte do cérebro afetada por uma doença ou um acidente, sua forma de ver o mundo ou tomar decisões é alterada (como o caso de Phineas Gage). Se a alma é responsável por essas coisas, então por que uma personalidade pode ser totalmente alterada por um cérebro danificado? Após passar por tantas teorias e considerar tantos ângulos, fica claro que identidade é algo subjetivo. Talvez a melhor maneira de ver essa questão é comparando a vida de uma pessoa com um seriado de TV. Haven é formado por vários episódios com características semelhantes. Ele  não é apenas o 1×07 ou o 2×03, mas o aglomerado de todas as histórias juntas. Essa pode ser a teoria que mais faz sentido. Nós não somos alguns eventos definidos, mas um aglomerado de situações.

Com a estreia da 3ª temporada, duvido que esses pontos sejam debatidos na série. Nós não sabemos direito como a aflição de Audrey funciona. É possível que entre essas memórias emprestadas, o verdadeiro self da personagem apareça, quem sabe até lembrando de suas “falsas” memórias. Mas independente das respostas dadas, acho que debates como esse são a graça das séries sci-fi. As histórias criadas podem não acontecer de verdade, mas fazem com que você reflita sobre a realidade. Podemos não ter chegado numa conclusão exata sobre identidade, mas acho que estamos no caminho certo sobre nosso lugar no mundo. Afinal de contas, “Penso, logo existo”.


Preview: A 6ª Temporada de Doctor Who

03/05/2011

Finalmente chegou o dia! Estreia hoje simultaneamente na Inglaterra e nos EUA a 6ª temporada de Doctor Who! Eu, como fã suprema do “homem louco com uma caixa”, não poderia estar mais ansiosa. Amava Eccleston e Tennant na obra de Russell T. Davies, mas Steven Moffat adicionou algo mais que Matt Smith na fórmula. Ele adicionou conto de fada, romance e magia, em um doutor mais positivo e vigoroso. Mas isso não exclui todas as criaturas bizarras e as tramas que te deixam com um nó na garganta ao final do episódio. Depois de nos presentear com a (quase) perfeita 5ª temporada, Moffat nos fez sofrer por meses esperando o retorno da gangue em uma história que envolve a Casa Branca. A estreia em duas partes começa com Amy, Rory e o Doctor no deserto de Utah, e passa para o Salão Oval em 1969. Quem já viu os promos, sabe o que os aguarda e, aparentemente, poderemos esperar características de “Blink” nos episódios, com as consequências de olhar (ou não) para os aliens e com personagens deixando mensagens para si mesmos. Também teremos a participação do ator multifuncional Mark Sheppard, que já participou de inúmeras séries como Battlestar GalacticaSupernaturalWarehouse 13 e Medium.

Quanto ao resto da temporada, é de se esperar algo tão genial quanto. Ela será dividida em duas partes: a primeira com sete episódios, começando hoje, e a segunda com os episódios restantes na época da fall season. Moffat afirmou que construiu um clímax enorme, resultando em umcliffhanger de tirar o fôlego entre as duas partes de temporada. Ele ainda estimula: “Você verá a vida do Doutor mudar para sempre, você irá suspirar em espanto com a verdadeira natureza de seu relacionamento com Amy e você irá chorar de horror enquanto Rory Williams ficar à beira de um trágico erro”. O livro The Brilliant Book of Doctor Who 2011 ainda revela algumas pistas sobre outros eventos, seja o possível retorno de Atraxi, a polícia galáctica que estava atrás do Prisioneiro Zero no primeiro episódio da 5ª temporada; mais esclarecimentos sobre a explosão da TARDIS, também na 5ª temporada; ou a introdução de um novo (ou não) personagem de Gallifrey. E, como não poderia faltar, teremos muito mais de River Song, que retorna junto com o 6º ano. Ela teve sua primeira participação no fantástico episódio duplo “Silence in the Library” e “Forest of the Dead”, da 4ª temporada. Na minha opinião, River é tão fascinante quanto o próprio Doctor. De qualquer maneira, a 6ª temporada promete. Então se prepare, porque aqui começa uma nova aventura absolutamente brilhante.

Texto também disponível no site LiGado em Série


Fringe e a Psicologia Analítica

19/04/2011

Além de possuir um ótimo roteiro com atores perfeitos para cada papel, Fringe também consegue ser referência crítica em diversas áreas, seja a Física Quântica, a Medicina ou até mesmo a Psicologia. Quando Peter Bishop diz que “a realidade é só uma questão de percepção”, ele não está somente reafirmando a ideia base da série, mas também discutindo um dos pontos do psiquiatra suíço Carl Jung, criador da psicologia analítica.

Uma das características do sistema junguiano, é que ele se baseia em vários autores. O filósofo Immanuel Kant aplicava em sua teoria o conceito de “conhecimento a priori”, algo que o indivíduo herda de seus antepassados. Um exemplo está na infância: muitos pais têm a impressão que seus filhos já nasceram, por exemplo, sabendo mexer no computador. Na primeira temporada da série, Olivia afirma que sempre foi boa com números. Esse é o conhecimento prévio do qual se trata; como se um pen drive contendo informações fosse passado de geração para geração, e que fosse possível acessar estes dados. Jung então vem a utilizar esse conceito, que irá fazer parte da concepção da realidade subjetiva, algo largamente propagado por Fringe. Outro conceito importante para entender essa relatividade é o de arquétipo. Ele corresponde a uma visão pré-concebida de símbolos, como o da Grande Mãe (aquela pessoa carinhosa, que cuida e estimula). O arquétipo vem daquela mesma informação “dos antepassados”. É uma forma inicial, uma ideia a qual cada um irá preencher de acordo com as pessoas que venha a conhecer e com a sua experiência de vida. Sempre há alguém que podemos representar como o Velho sábio, o Herói, a Virgem. Em Fringe, notamos os arquétipos recorrentes de personagens, como Walter, no papel do cientista louco.

Esses dois conceitos são parte da teoria de apologética do subjetivismo de Jung e o ponto de partida para vários episódios deste drama. Como o conhecimento a priori e o arquétipo se manifestam de forma diferente em cada pessoa, isso faz com que cada evento signifique algo distinto para cada um e que cada manifestação do Padrão em Fringe tome uma proporção única dependendo do referencial: Olivia, Peter, Broyles, Nina ou Walter. Assim sendo, cada indivíduo enxergará aquela realidade baseado em que sua psique permita. No episódio 3×17 (Stowaway), Willivia apresenta duas explicações para o caso da aparentemente imortal Dana Grey: a primeira é racional, com base na física e biologia e a segunda com fundamento na fé. Essas maneiras diferentes de ver a vida faz com que não exista uma verdade única. O que é possível para mim, pode não ser possível para você. E é nessa tecla que Fringe bate toda semana. Abra sua mente, aceite que possa existir coisas das quais você ainda não se deu conta. Dessa forma, pessoas podem desenvolver habilidades extraordinárias e universos paralelos tornam-se não apenas factíveis, como até mesmo aceitáveis.

Texto também disponível no site LiGado em Série


Filme: FAQ About Time Travel

31/03/2011

“Querida Hollywood, por favor pare de fazer filmes porcarias. Aqui vão algumas dicas para ajudar: 1) A história é o principal. Sempre foi e sempre será 2) Refilmagens 3) Jude Law 4) Han atirou primeiro 5) Mais Firefly e/ou Serenity”. Essa é uma carta que três amigos estão escrevendo enquanto tomam cerveja em um bar. Logo depois, eles caem em um vazamento temporal.

Esse é um filme recomendado para aqueles que são possuídos por uma grande felicidade quando leem palavras como paradoxo, teoria do caos, linha do tempo e universo paralelo. Perguntas Frequentes Sobre Viagem no Tempo foi lançado em 2009 pela BBC e HBO. Protagonizado por Chris O’Dowd (The IT Crowd) e com a participação de Anna Faris (Todo Mundo em Pânico), a trama é uma comédia que trata sobre viagem no tempo por pessoas que têm noção sobre o assunto (não é como filmes de zumbi em que os personagens nunca ouviram falar sobre zumbis).

Com duração de 1h20, o filme pode ser visto tanto por profissionais da área (formado em De Volta para o Futuro, especializado no Guia do Mochileiro das Galáxias e com doutorado em Doctor Who) como por iniciantes (já ouviu falar daquele filme com o Arnold Schwarzenegger). Para os amadores é uma trama diferente e, para os viciados, mais uma obra cheia de referências e clichês (não no sentido negativo). FAQ About Time Travel possui um orçamento baixo, mas isso não faz diferença alguma. A história em si faz com que efeitos especiais e cia sejam dispensáveis.

Em suma, se você é daquelas pessoas que não pisca quando vê uma estátua ou que sempre carrega uma toalha consigo, agora nunca mais vai querer entrar em um banheiro público.


Séries para Leigos: Community

30/03/2011

Um egocêntrico advogado é obrigado a voltar à faculdade. Para conseguir sair com uma garota, ele acaba por criar um grupo de estudos, o qual é composto por pessoas com as mais diferentes personalidades.

Até então normal; mais uma sitcom envolvendo um grupo de pessoas que irão superar suas diferenças e se tornar uma família, passando por várias situações engraçadas, não é? Não. Community não é apenas mais uma série de comédia. Community é uma experiência, algo diferente de qualquer coisa na televisão. Isso tudo devido ao seu roteiro, ou melhor, ao seu estilo de roteiro.

Um clima pós apocalíptico em uma guerra de paintball, Charlie Kaufman e toda sua metalinguagem, um mundo inteiro em stop motion, uma viagem espacial dentro de um velho trailer, uma festa de Halloween interrompida por um ataque zumbi – quase todo episódio possui um estilo próprio. E aqueles que não possuem um tema propriamente dito, continuam recheados de referências pop culturais e paródias/homenagens a filmes. Tudo isso com um roteiro bem escrito e ambientado em uma faculdade comunitária completamente nonsense.

A série foi criada em 2009 por Dan Harmon, baseada na sua própria vida enquanto estudava na faculdade comunitária Glendale. Ele é o co-criador do seriado “The Sarah Silverman Program”, protagonizada pela comediante politicamente incorreta do título. Ele também trabalhou em vários outros projetos, envolvendo atores como Jack Black, Drew Carey e Owen Wilson. Uma das características de seus projetos é a inserção de diferentes mídias digitais para promover e diversificar o programa, e Community não fica de fora. É possível encontrar websódios no You Tube, assim como o site da faculdade Greendale, com lugar para inscrições e o jornal do campus.

Como muitas outras séries e filmes injustiçados, Community ainda não foi indicado a Emmys e Golden Globes da vida. Mesmo assim, o número de fãs continua crescendo e a audiência permanece boa, fazendo com que a 3ª temporada já esteja confirmada. Você encontra a 1ª temporada em DVD, e pode acompanhar a 2ª pelo canal Sony. Abaixo, deixo algumas fotos do (lindo) box americano da 1ª temporada (clique na imagem para aumentá-la):


Os Títulos das Séries

08/11/2010

Uma série brilhante é um conjunto de vários fatores: roteiro, elenco, produção, direção, etc. Cada detalhe enriquece o programa, e nada diz “Nós cuidamos de todos os aspectos desse seriado” como uma relação de títulos bem colocados.

Eles podem seguir um padrão gramatical, como os de Friends (The One with the Blackout, The One with the Giant Poking Device, The One with the Girl from Poughkeepsie) ou The Big Bang Theory (The Pancake Batter Anomaly, The Killer Robot Instability, The Wheaton Recurrence); podem ser títulos de músicas, como em Grey’s Anatomy (Raindrops Keep Falling On My Head, Grandma Got Run Over By a Reindeer, I Like You So Much Better When You’re Naked); ou podem ser títulos de filmes/séries/cultura pop modificados, como Charmed (The Truth is Out There… and It Hurts, Womb Raider, Kill Billie Vol. 1) ou Veronica Mars (Mars vs Mars, Rashard and Wallace Go to White Castle, President Evil).

Alguns nem sempre seguem padrões, mas a preocupação com o título se torna evidente com o seu significado. Pode ser algo simples, como “33” de Battlestar Galactica (que denota a quantidade de minutos que a tripulação podia ficar em um lugar antes que naves cylons atacassem); ou também pode ser algo mais plural, como “42” de Doctor Who (o qual é um episódio que se passa em “tempo real”, parecido com um episódio de 24 Horas. Também faz uma referência ao Guia do Mochileiro das Galáxias, em que 42 é a “resposta” chave da história. Uma curiosidade é que Douglas Adams (autor dos livros) foi roteirista na época das series originais de Doctor Who).

Para terminar o artigo, deixo cinco dos meus títulos favoritos:

“Nothing Important Happened Today” – Arquivo X

“A Priest, a Doctor and a Medium Walk into an Execution Chamber” – Medium

“Jack, Meet Ethan. Ethan? Jack.” – Lost (mobisode)

“Nothing Good Happens After 2 AM” – How I Met Your Mother

“Do Shapeshifters Dream of Electric Sheep?” – Fringe

 

Qual o seu título preferido?


A Caminhada dos Mortos-Vivos

28/07/2010

Eles não surgiram do nada, não saíram da cabeça de um único autor que resolveu criar uma criatura primitiva e violenta que deseja comer cérebros. Não, sua história é mais antiga, mais sorrateira. Ela começa em contos sombrios: em mitos e folclores que retratam demônios que se alimentam de carne humana. No século XIX, a sua história se torna mais verossímil, com o monstro descrito por Mary Shelley em Frankenstein. No lugar de entidades vindas do inferno, temos um ser humano (na verdade, vários pedaços de humanos diferentes) que volta à vida através da ciência. Depois disso, eles começam a tomar características mais conhecidas nos livros de H.P. Lovecraft e no filme White Zombie, de 1932. Embora vários outros contos e filmes já englobassem sua mitologia nessa época, foi em 1968 com George A. Romero, que os zumbis fizeram sucesso e viraram um marco na cultura popular.

A partir de então, foi criada uma vasta linha variada de zumbis, seja nos livros de Stephan King, nos jogos de videogame de The House of the Dead ou nos filmes estilo Extermínio. É zumbi lento, zumbi rápido, zumbi resultado de feitiço, zumbi criado por um vírus, zumbi geneticamente modificado, zumbi na era vitoriana, zumbi dançarino, zumbi que não tolera luz e até… zumbi que brilha? Não, ainda bem que nunca ousaram criar tal obscenidade. Embora vários filmes, livros e jogos tenham sido criados em cima de tal conceito, nunca foi produzida uma série de TV. Claro, já tivemos zumbis aparecendo em episódios de vários seriados, como Arquivo X, Buffy e Medium. Também já tivemos os mortos-vivos em uma minissérie britânica chamada Dead Set, mas nada de série propriamente dita. Isso muda no final desse ano, com a estreia de The Walking Dead.

Baseada nas histórias em quadrinhos criadas por Robert Kirkman e lançadas em 2003, teremos um programa centrado em personagens tentando sobreviver em um ambiente dominado por zumbis. Então você diz: “Com tanto filme já feito, por que assistir uma série de zumbi? Vai ser um saco; sempre a mesma coisa!”. Mas é aí que você se engana. O interessante de uma série é que é possível desenvolver uma mitologia, algo que os filmes não podem fazer devido ao seu tempo limitado. Salvo produções como Resident Evil, que possui uma saga, os outros filmes só podem mostrar um pedaço da história, com personagens já construídos. O efeito de um apocalipse gera reações diferentes em cada indivíduo, e é essa transformação de personalidade que poderemos acompanhar a cada episódio; além de zumbis famintos atacando qualquer um que cruzar seu caminho. Diferente do que muitos pensam, The Walking Dead não será um seriado de terror sobre zumbis comendo pessoas, mas um seriado dramático relatando a luta de indivíduos tentando se adaptar a uma nova realidade. O que acontece quando se remove a lei e o governo de uma sociedade, a qual agora vive com medo constante? Pois é o que iremos descobrir nesse novo projeto do canal AMC.

A série está prevista para outubro e, enquanto a data não chega, você pode conferir as HQs já lançadas. Outra possibilidade é assistir os inúmeros filmes de zumbis já produzidos: que tal algumas obras originais de Romero? Ou alguns clássicos como Re-Animator? Prefere um pouco mais de Robert Rodriguez em Planeta Terror? Ou seu estilo é mais comédia com Zumbilândia? Seja qual for o gênero ou a época, o importante é ficar atento. E lembre-se: Mire sempre na cabeça!

Texto em colaboração com o blog LiGado em Série


Séries para Leigos: The IT Crowd

24/06/2010

Antes de Sheldon e Leonard dominarem o mundo geek, Roy já usava camisetas de super-heróis nas Indústrias Reynholm.

The IT Crowd é uma série britânica criada em 2006. Ela conta a história dos três membros do departamento IT (Information Technology): a nova gerente Jen Barber, a qual convenceu seu chefe que possui muitas habilidades com computadores (como deletar e-mails, enviar e-mails, escrever e-mails e assim por diante); e os técnicos Roy e Moss, que são descritos como “standard nerds” (algo como nerds de padrão). Considerando que a maioria dos problemas da empresa podem ser resolvidos apenas com um reset nos computadores, os três possuem bastante tempo para se meterem em situações inesperadas e engraçadas.

O seriado já possui três temporadas (com seis episódios cada), e o quarto ano estreia nessa mid-season. A maioria das histórias se passa no porão do edifício, onde fica a sede do IT. Uma curiosidade é que na terceira temporada, Graham Linehan (diretor da série) pediu para os fãs doações de itens que poderiam ser usados na decoração do espaço. Muitas doações foram feitas, e é possível notar a diferença da quantidade de acessórios referentes aos anos anteriores. O museu de computação da Inglaterra também doou vários computadores antigos, que podem ser vistos nos episódios.

Como o programa fez sucesso em sua terra natal, vencendo premiações no BAFTA e no Emmy International, os Estados Unidos e a Alemanha resolveram fazer suas versões. A alemã foi cancelada após o segundo episódio, enquanto a americana (que seria exibida pelo canal NBC) não saiu do papel. O ator Joel McHale reprisaria seu papel como Moss na versão americana.

A comparação entre The IT CrowdThe Big Bang Theory pode ser feita por seguir uma idéia básica similar. No entanto, o tipo de humor é diferente. A série britânica não possui tantas referências culturais quanto TBBT, e também é mais fácil dar risada com ela. Não é necessário saber muito do mundo geek para se divertir com as tramas.

A quarta temporada estreia na programação inglesa essa semana, mas o Channel 4 já o disponibilizou na internet.


Vídeo: Kate’s Adventure

18/06/2010

Como seria uma história misturando Lost, Fringe, Exterminador do Futuro, Sin City e Glee? Foi isso que eu imaginei ao fazer um projeto audiovisual para minha aula de fotografia. Peguei alguns vídeos e misturei com fotos que eu tirei, criando uma trama absurda (porém divertida?). Não consegui colocar a narração, então fui na base de anotações do You Tube. Tomara que dê para entender, e espero que gostem!
(Clique em cima do vídeo para ele abrir maior em uma nova janela)


Séries para Leigos: Terminator: The Sarah Connor Chronicles

26/05/2010

A série chamada no Brasil de “O Exterminador do Futuro” é derivada do filme homônimo, que tem como ícone Arnold Schwarzenegger e a direção de James Cameron (Avatar).

Os eventos do seriado se situam logo após o segundo filme e apresenta uma realidade alternativa quanto ao terceiro. A história base é praticamente a mesma – Sarah, John e um Exterminador bonzinho enviado do futuro tentam impedir que a tecnologia da Skynet se desenvolva, enquanto fogem do Exterminador malvado. A diferença do filme para a série é a mudança da perspectiva do Exterminador (assim como seu estereótipo) e a exploração da mitologia criada por Cameron.

A primeira temporada possui nove episódios, e a segunda 22. Infelizmente, Terminator:SCC foi cancelada antes do terceiro ano, que de acordo com Josh Friedman (Produtor Executivo), teria sido a melhor temporada. Mesmo com apenas 31 episódios, a série merece ser vista, pois além das lutas e explosões básicas, o roteiro mostra a difícil tarefa de Sarah – proteger seu filho do perigo e ao mesmo tempo criá-lo para ser o futuro líder da revolução contra as máquinas.

Como Sarah Connor e a Exterminadora Cameron (sim, uma homenagem a James Cameron) temos Lena Headey (Os Irmãos Grimm) e Summer Glau (Firefly). O elenco também conta com Brian Austin Green (Beverly Hills, 90210) como o irmão de Kyle Reese (pai de John) e a épica participação de Shirley Manson (vocalista da banda Garbage) durante a segunda temporada. Manson também co-escreveu e cantou uma versão da música gospel “Samson and Delilah“, que toca durante os primeiros minutos do episódio de estreia do segundo ano. O resto da trilha sonora foi desenvolvida por Bear McCreary, responsável por músicas de Battlestar Galactica, Caprica e Eureka.

Como parte do grande marketing da série, vários posters foram criados usando principalmente a personagem de Summer Glau. Um deles, descrito como uma “Lady Godiva-esque pose”, foi usado em vários outdoors na cidade de Los Angeles.

A interpretação da Exterminadora rendeu para Summer Glau um Saturn Award, assim como nominações para outros dois prêmios. Lena Headey e Thomas Dekker  também concorreram no Teen Choice Awards e Saturn Award, mas não venceram em suas categorias.

Terminator: The Sarah Connor Chronicles já está disponível em Blu-Ray/DVD e é exibida no SBT todos os dias às 21h. Não deixem de conferir.


As Séries e seus Atiradores

17/05/2010

Nada mais angustiante que ter suas personagens favoritas presas em um local com um atirador sem piedade. Essa fórmula rendeu ótimos episódios para séries como ER, Cold Case, House, CSI: NY e Alias. Para o final de temporada de Grey’s Anatomy, Shonda Rhimes resolve usar tal técnica que, embora não tão original, (quase) sempre funciona.

Que tal se preparar para Grey’s com momentos em que o futuro de médicos e policiais é colocado nas mãos de homens armados?

Pode conter spoilers

ER – 12×22: 21 Guns

O ER já havia lidado com pacientes armados, mas nada como isso. A vida de todos é colocada em risco quando prisioneiros tentam fugir do hospital, resultando em um dos melhores finais de temporada já produzidos. Uma personagem é atingida, uma sequestrada e uma necessita de um procedimento de emergência.
Para assistir parte da cena do tiroteiro, clique AQUI

Cold Case – 4×24: Stalker

Ao investigar um caso em que uma família inteira foi assassinada, a equipe é surpreendida e tomada como refém no departamento. Lilly é colocada em um situação delicada na tentativa de salvar os outros membros envolvidos.
Para assistir o promo do episódio clique AQUI

Alias – 1×12/13: The Box

As missões de Sydney Bristow sempre foram cheias de ação, mas suas habilidades realmente são testadas quando um grupo invade a SD-6 em busca de Sloane por vingança. Sydney precisa desviar de balas enquanto trabalha com seu pai para evitar um final trágico. O episódio por si já é ótimo, e só melhora por ter Quentin Tarantino como o vilão-mor da trama.

House – 5×09: Last Resort

Na segunda temporada, House ficou de frente com um homem armado; e o resultado não foi muito bom. Três anos depois, ele encara novamente um paciente frustrado e tenta lidar com a situação da melhor maneira possível (na perspectiva House, claro). Dessa vez não é apenas sua vida que é ameaçada, mas também de outros pacientes e a de Thirteen.
Para assistir o promo do episódio, clique AQUI

CSI: NY – 3×24: Snow Day

Mac e Stella resolvem semanalmente situações de reféns, mas agora eles devem resolver a sua própria quando a sede é invadida. Embora o prédio esteja cercado por policiais, cabe a eles se unirem com Hawkes e evitar que os invasores completem seu objetivo.
Para assistir o promo do episódio, clique AQUI

Grey’s Anatomy – 6×23: Sanctuary/ 6×24: Death and All His Friends

[Mini-Spoiler]O promo do episódio já foi divulgado e, aparentemente, vai seguir o exemplo de seus similares finalizando em um tenso final de temporada. Resta esperar até quinta-feira (20 de maio, nos EUA) e descobrir quais serão as consequências do ataque.
Para ler a sinopse dos episódios, clique AQUI. Para o promo AQUI. Para os 10 primeiros minutos do episódio, AQUI


Happy Valentine’s Day

14/02/2010

Para comemorar o dia de São Valentin (Dia dos Namorados nos EUA e em outros países), juntei cinco episódios de séries que se passam durante tal data. Tem histórias para todos os gostos: bonitinha, engraçada ou dramática.

Vineyard Valentine – Gilmore Girls (6×15)

Lorelai, Luke, Rory e Logan viajam até Martha’s Vineyard para passar o fim de semana do dia dos namorados. Além do episódio acontecer fora de Stars Hollow, outra peculiaridade da trama é a ida dos quatro até uma academia de ginástica.

All In The Family – ER (6×14)

Em um dos episódios mais marcantes da série, esse dia dos namorados não foi nada bom para os que trabalhavam no hospital. Carter e Lucy são atacados por um paciente esquizofrênico e toda a equipe se mobiliza para tentar salvar a vida dos dois.

Bewitched, Bothered and Bewildered – Buffy (2×16)

Na época em que Buffy ainda tinha uma trama decente, tiradas inteligentes e episódios comemorativos legais, o dia dos namorados é lembrado com mais um feitiço que sai pela culatra. Depois que Cordelia termina com Xander, ele tenta recuperá-la por meio de magia.

St. Valentine’s Day – 30 Rock (3×11)

Acidentalmente, Liz marca seu primeiro encontro com Drew no dia dos namorados. A partir de então tudo começa a dar errado, como um incidente com a porta do banheiro e uma revelação familiar. Enquanto isso, Jack planeja um jantar romântico com Eliza, mas as coisas não ocorrem como o plano quando ele é obrigado a ir à igreja.

The One With Unagi – Friends (6×17)

E é claro que Friends não poderia ficar fora da lista. Chandler e Monica comemoram o dia dos namorados duas semanas mais tarde, e combinam de fazer seus próprios presentes (os quais não são feitos por nenhum dos dois). Na mesma trama, Ross quer ensinar a Rachel e Phoebe uma técnica japonesa chamada “Unagi”.


Minisséries: Alice (SyFy)

28/01/2010

A obra que retrata uma menina curiosa que segue um coelho branco até um mundo fantástico foi um dos contos que marcaram minha infância, e que continua a me agradar até hoje.

Depois de Tin Man (versão SyFy de “O mágico de OZ”), tinha certeza que Alice seria algo espetacular, juntando um mundo de fantasia com ficção científica. Infelizmente, ao misturar muitas versões de Alice, a história perdeu um pouco do seu sentido, e o personagem mais importante foi deixado de fora.

O que deve ser levado em consideração, é que a mini-série não é apenas uma mistura da história de Lewis Carroll com um toque SyFy. Existem muitos personagens e várias partes da trama que remetem ao livro “The Looking Glass Wars”, de Frank Beddor, e ao jogo de videogame “American McGee’s Alice”.

No livro de Beddor, Alice (que na trama se chama Alyss) é a princesa do país das maravilhas, mas quando ocorre uma guerra civil liderada por sua tia, Redd Hart, a menina foge para a Terra, junto com seu guarda-costas Hatter Madigan (o chapeleiro). No entanto, ambos são separados quando chegam à Terra – Alyss caindo em Londres e Hatter na França. A jovem é adotada pela família Liddell e ao passar do tempo, ela acredita que Wonderland não passa de um conto de fadas. Na trama, ainda pode se encontrar Jack of Diamons (um rapaz egoísta que fora definido como o futuro noivo de Alyss, quando ambos eram pequenos) e Blue Caterpillar (chefe dos guardiões de um sagrado cristal).

Já a história do videogame é mais sombria e mórbida. Depois do segundo livro de Alice, a casa da garota pega fogo, matando sua família. Ela se sente culpada pelo fato e tenta se matar – tornando-se catatônica. Alice é colocada em um asilo, e dez anos mais tarde, o coelho branco a aborda pedindo sua ajuda para parar a Rainha de Copas. Como Wonderland é uma projeção da mente de Alice, o lugar se tornou uma terra insana e macabra, e Alice é a única que pode ajudar o lugar, assim como a si mesma. No jogo, o Chapeleiro é um louco cientista. Ele faz vários experimentos na Lebre de Março, e substitui seu torço e braço direito por partes mecânicas. Tweedle Dee e Tweedle Dum são sádicos irmãos que trabalham para o Chapeleiro, gerenciando o asilo do lugar.

Algum desses personagens os lembra alguma coisa?

Voltando para a adaptação do SyFy, a primeira parte é consideravelmente bem estruturada e coesa. Somos apresentados a uma Alice igualmente esperta e independente, no entanto mais velha, ágil e…morena. A trama dessa parte gira em torno de Alice em Wonderland tentando achar seu namorado Jack, que foi seqüestrado pela organização White Rabbit. Gostei que Alice teve um bom motivo para seguir o “coelho branco” até Wonderland, e não apenas sua curiosidade.

O roteiro dessa parte permitiu uma história original fazendo várias referências à obra literária – desde o caminho que Alice percorre até a personalidade de alguns personagens e citações do livro. No entanto, por ser uma releitura de “Alice no país das maravilhas”, acho que faltou um pouco do nonsense que é tão bem colocado no livro – com suas falas inteligentes cheias de silogismos, sofisma e falácias.

Mesmo assim considero a primeira parte boa, terminando com a aparição de dois dos melhores personagens da mini-série: Tweedle Dee e Tweedle Dum. Já a segunda parte, é outra história (em vários sentidos).

Sua busca por Jack é encerrada e o novo estímulo para Alice ficar em Wonderland é achar seu pai.  Nessa parte tudo acontece muito rápido, com ações sem serem explicadas propriamente. As perseguições são um tanto quanto ridículas, principalmente as que ocorrem dentro do cassino (realmente é muito difícil para um bando de “engravatados” derrubar uma porta possivelmente de vidro presa apenas por uma vassoura). E quanto ao “exército” que o cavaleiro branco Charlie (Dr. Jim Taggart, de Eureka)leva para frente do local? Pra mim foi o ápice do mal feito. A história inteira se passa sem o uso do nonsense (a não ser pelas falas de Charlie) e chega nessa hora e todo mundo acredita que aquilo é mesmo um exército? Pois não convenceu (isso que eu nem vou perguntar COMO ele conseguiu levar aqueles esqueletos até lá).

Se tudo isso não fosse o suficiente, Alice consegue quebrar muito facilmente o sistema do cassino e no final, quando tudo é destruído e ela consegue o anel de volta, ela faz o gesto mais clichê que existe, levantando seu braço e segurando o objeto como um troféu. Também achei incrível como todos comemoram a vitória de Alice. Se eu fosse uma “ostra” que tivesse acabado de “acordar” eu estaria confusa, e não teria a mínima idéia do que era aquele anel.

Para não dizer que a segunda parte foi de todo mal, devo dizer que gostei do arco de Alice com o Carpinteiro, que era o seu pai. Assim como do Hospital dos Sonhos e de seus “pacientes”. A transformação da Duquesa também foi interessante. Ela sempre foi retratada como uma criatura horrorosa, algo que muda drasticamente nessa versão, embora continue agindo como antagonista da Rainha. E não poderia deixar de fora o fofo do Hatter, que possui um grande papel durante toda a mini-série e que torna o final bonitinho.

Quanto à personagem da Rainha de Copas, ela era coerente demais, sem as mudanças bruscas de humor e o desejo de cortar a cabeça de todos (o que acontece, mas pouco). Também acho que Caterpillar não foi muito bem retratado. Ele poderia ter sido muito mais enigmático e com uma fala mais pausada. E o principal: o que aconteceu com o Mestre Gato?? Na minha visão, ele é o personagem mais importante e cheio de significados, e os roteiristas o transformam em uma aparição de dois segundos sem um propósito maior? Acho que esse foi o maior pecado cometido.

Tendo tudo isso dito, considero “Alice” uma mini-série divertidinha de assistir uma vez, mas não passa disso. A história e os personagens não foram tão bem explorados quanto eu esperava. Boa parte da filosofia foi deixada de lado sem se ter criado uma nova.

E para terminar minha crítica, devo dizer que fiquei altamente irritada com o cabelo de Alice. A garota foge dos soldados da rainha, cai na água, tenta se livrar de um assassino psicopata, fica frente a frente com um Jabberwocky, cai na água de novo, destrói o reino de Copas e mesmo assim seu cabelo sempre está impecavelmente penteado e perfeitamente preso com uma fivela. Queria que o meu também fosse assim…


CSI Las Vegas X CSI Curitiba

25/01/2010

“Em uma cidade em que a indiferença sobre o outro prospera, uma garota é encontrada. Cabelos loiros, unhas feitas, corpo rígido, olhos espantados. Os peritos chegam ao local.”

Tal história poderia ser o começo de um novo episódio de CSI, assim como poderia ser um novo caso para o Instituto de Criminalística de Curitiba. A cena é a mesma, muda o que vem depois. Em Las Vegas, a área estaria isolada dos cidadãos com fitas amarelas “Do Not Cross” e os peritos chegariam com seus kits de alta tecnologia para analisar o local. Em Curitiba, a vítima estaria coberta com um lençol, os cidadãos estariam praticamente pisando nesse lençol e os peritos chegariam com seu kit básico e sua criatividade.

A maioria que assiste ao seriado sabe que muito do que é mostrado no programa é fantasioso. Para fazer sucesso, uma atração deve cativar o telespectador com tramas interessantes e personagens bem desenvolvidos. Por tal motivo, alguns aspectos são mostrados de maneira errônea. No entanto, quando se faz uma comparação do que o show apresenta com a realidade curitibana, percebe-se que há muitos fatores em comum, desde a técnica de recolher uma impressão digital até máquinas tecnológicas para fazer a análise de drogas e álcool.

Deve-se levar em conta, entretanto, que alguns fatores são diferentes devido à legislação do país. Um exemplo é que nos EUA quem libera o corpo da cena do crime é o legista, no Brasil é o próprio perito que está no local.

Procedimento

No seriado, quando o CSI (criminalista norte-americano) chega ao local, ele observa a cena, fotografa o corpo e as evidências à sua volta e, depois que o corpo é liberado, ele colhe tudo que acha significativo.

A realidade não foge muito disso. O maior problema é que em Curitiba há quase sempre a contaminação da cena do crime. Se o corpo não é movido, é coberto por alguma coisa, ou as pessoas ficam muito perto da vítima – pisoteando o local e destruindo provas. No entanto, o perito faz o que pode. Ele também observa e tira fotos (no programa são usadas máquinas fotográficas digitais semi-profissionais para fotografar o corpo. Em Curitiba, máquina digital normal) e depois colhe evidências. Outra diferença é que os CSIs têm plásticos e frascos específicos para colher as provas e em Curitiba, os peritos usam praticamente qualquer coisa para coletar amostras. Alguns usam sacos plásticos ou até mesmo as próprias mãos; os mais organizados usam pequenos plásticos individuais. Incrível é a sorte que os criminalistas de Las Vegas têm quanto ao recolhimento de evidências. Tudo que eles coletam é significativo para o caso, infelizmente, nossos peritos pecam com essa falta de sorte.

Embora cada CSI tenha uma especialização em sua ficha, todos eles são experts em todas as áreas, seja balística, química,genética molecular forense ou papiloscopia. Sem contar que eles também atuam como policiais e detetives. Nossos peritos possuem certa liberdade de transitar entre algumas áreas, mas não tanto como é mostrado no show. Também não atuam como detetives ou policiais, ainda que tenham porte de arma. É difícil um perito acompanhar um caso do começo ao fim. A maioria faz o exame que está na sua área e passa para frente. Os únicos casos com que eles têm mais contato são aqueles com repercussão na mídia.

Diferente do programa, no qual os CSIs sempre investigam a casa da vítima, os peritos curitibanos só fazem isso se a casa é a cena do crime. Caso contrário, é trabalho dos investigadores. E ao fazer a perícia na residência, os criminalistas acendem as luzes, algo que aparentemente não passou pela cabeça de Grisson ou Catherine .

O líder do grupo de CSIs é conhecido por seu trabalho como entomólogo. Isso significa que ele estuda os vermes e insetos que estão perto do corpo para saber, principalmente, a hora da morte da vítima. Os peritos curitibanos usam a mesma técnica. Todos possuem alguns tipos de termômetros, mas não há nada melhor e mais confiável que a natureza em si.

De fato as câmeras de vídeo são usadas nas investigações. Em Curitiba não há tantas câmeras espalhadas pela cidade como em Las Vegas, mas ainda assim elas ajudam. E por incrível que pareça, a imagem pode sim ser aumentada várias vezes, até se adquirir uma placa ou algo que identifique um suspeito.

Outra coisa que não acontece na realidade é o fato dos cinco CSIs sempre estarem trabalhando juntos, embora peguem casos separados. No Instituto há certo número de pessoas trabalhando em cada área e são principalmente essas pessoas que vão estar juntas diariamente, fazendo a maioria do trabalho individualmente.

Balística

Essa é uma área em que são usadas as mesmas técnicas de análise de projéteis em praticamente todos os lugares. Para ligar um projétil a certa arma, é preciso observar dois tipos de características da bala: a de grupo e a individual.
Nas características de grupo o que se observa é o calibre do projétil, que é medido por seu diâmetro (um diâmetro de 9mm significa um calibre de 9mm). Isso reduz a busca, pois após descobrir o calibre, sabe-se que marca ou marcas são suspeitas.

Depois de apreender uma arma suspeita, é preciso observar as características individuais da bala. Quando a arma dispara um projétil, ele passa pelo barril da arma, criando estrias específicas. O perito irá disparar a bala da arma suspeita em um tanque de água para que possa comparar as duas balas (a da arma suspeita e a recolhida na cena do crime ou do corpo da vítima) em um microscópio comparador. As estrias de um projétil são únicas, como impressões digitais. Se ambas as estrias forem iguais, a arma é a mesma.

A única diferença na área da balística de CSI é que eles possuem alguns lasers que são usados na cena do crime para calcular o ângulo e a trajetória da bala. Também possuem pequenas varetas que são colocadas no corpo da vítima para o mesmo propósito.

AFIS/CODIS

Nos Estados Unidos há um grande banco de dados contendo impressões digitais e DNA de várias pessoas. O sistema digital AFIS contém as impressões digitais de empregados de grandes empresas até criminosos condenados. O CODIS segue o mesmo padrão, mas no lugar de impressões digitais, é o DNA da pessoa. Esse banco possui menos pessoas, sendo que a maioria é criminosa.

O Brasil ainda não possui um banco de dados como os EUA, mas um programa semelhante já foi iniciado. Até que seja mais desenvolvido, a única maneira de comparar uma impressão digital ou DNA achado na cena do crime é se houver um suspeito.

DNA

Na maioria dos casos, os CSIs encontram manchas de sangue, cabelo (com o bulbo) ou qualquer outra evidência que possua DNA. Eles recebem o resultado em menos de um dia e, se não obtiverem nenhum resultado no CODIS, no final é sempre achada a pessoa que pertence tal seqüência genética.

O resultado de DNA nunca é obtido em menos de dois dias. Um teste de paternidade demora em torno de três dias, enquanto a análise feita a partir de uma amostra óssea pode levar meses.

Outro fato é que nem sempre é achado DNA na cena e em alguns casos, ele não é fundamental para a resolução. No entanto, o procedimento mostrado é acurado.

A primeira coisa a se fazer é extrair o DNA da célula, usando uma solução de lise. A solução quebra a célula e o núcleo, liberando o DNA. Em seguida, o DNA é colocado em uma máquina chamada de PCR, a qual irá copiar os marcadores milhões de vezes (a porcentagem que diferencia um ser humano do outro é de 0,01%. Marcadores são utilizados para destacar partes do DNA características daquela pessoa). Uma vez amplificados, os marcadores precisam ser ordenados por tamanho em um analisador genético. O DNA irá percorrer um pequeno tubo – quanto menor o marcador, mais rápido ele chega ao final do circuito. Um laser detecta quando cada marcador sai do tubo e transfere essa informação para o computador, que produz um gráfico com os picos de cada marcador. Cada amostra de DNA utiliza 13 marcadores, no Brasil usam-se 15.

Impressões Digitais

Assim como na balística, não há segredo sobre a papiloscopia. Os CSIs passam um pó sob superfícies suspeitas e, se houver uma impressão, eles a retiram. A diferença cai sobre o material utilizado para colher a impressão. No programa, há um tipo de papel adesivo específico para colher a impressão, em Curitiba é usado durex mesmo.
A impressão recolhida no seriado passa pelo scanner e é jogada no programa AFIS para ver se há alguma combinação. Os peritos curitibanos fotografam a impressão usando um microscópio e usam a técnica manual para fazer a análise (a qual só pode ser feita se houver uma impressão digital de um suspeito para comparar).

Química

Nessa área, os peritos curitibanos analisam na maioria das vezes drogas, mas não deixam de analisar sangue e sêmen.
Para ponderar a quantidade de álcool em algum líquido, os peritos de Las Vegas e de Curitiba utilizam a mesma máquina. O sistema consiste em evaporar o álcool do líquido e analisá-lo.

Quanto às drogas, o seriado mostra que primeiro é feito um teste chamado Elisa para saber se há vestígios de drogas na amostra. Esse teste somente mostra a classe de uma droga, como anfetaminas e barbituratos. Para saber qual é a droga em si, a amostra deve passar por uma máquina chamada GC/MS. Em Curitiba, os peritos usam a mesma técnica, mas pulam a etapa do teste de Elisa e colocam a amostra direto na GC/MS.

Vale lembrar também que são os químicos quem passam luminol na área se necessário. Os peritos que vão até a cena do crime não carregam esse produto.

Retrato Falado

Quando uma vítima sobrevive a algum tipo de crime, o perito prosopográfico é chamado. No programa, o profissional faz o retrato falado digitalmente. Na realidade, a técnica digital está sendo abandonada, mesmo nos Estados Unidos. Quando o desenho é feito manualmente, ele corresponde mais ao suspeito.

Outra técnica mostrada de vez em quando na série é a reconstituição facial feita em cima do próprio crânio da vítima. Não é feito mais isso porque atualmente existem programas de computador que fazem essa reconstituição digitalmente.

Repercussão

Alguns estudiosos americanos acreditam que exista um “efeito CSI”. Alguns jurados assistem ao programa e acham que tudo aquilo é verdade e na hora do julgamento, eles exigem níveis de provas físicas nada razoáveis. Eles querem que todos os casos possuam impressões digitais e DNA, mas não é assim que funciona. Há um caso na cidade de Baltimore (EUA) em que o júri absolveu um homem na acusação de assassinato por falta de provas físicas. Os advogados culparam o “efeito CSI” pela não convicção do acusado.

Embora haja um descontentamento de alguns profissionais quanto a esse suposto efeito, nada nunca foi provado. Aliás, já foi comprovado que houve um aumento na procura por cursos forenses tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Já foram inseridas matérias específicas sobre a criminalística em algumas faculdades brasileiras. E se há uma maior procura por cursos, significa mais profissionais na área, o que nunca é demais.

Ninguém pode discordar que CSI é um programa de sucesso. Não faz mal algum gostar da série, só não pode levar tudo que aparece na tela ao pé da letra.


Séries para Leigos: Joss Whedon e a Dollhouse

21/01/2010

Antes que cientistas japoneses pensassem em criar o sangue sintético, e que Sookie, Bill e companhia tomassem conta do mundo vampiresco, Joss Whedon já havia feito sua fama com Buffy – A caça vampiros e Angel.

Parte do sucesso de suas criações se dá pela filosofia por trás de cada série. Buffy não era apenas uma garota loira que caçava vampiros, mas uma adolescente feminista que combatia analogias de um mundo real. Assim como Angel não era apenas um vampiro renegado matando sua própria raça, mas uma metáfora ambulante de redenção que andava na fina linha da ambigüidade moral e ética. Os tripulantes de Firefly também não ficam de fora, mostrando a vida de pessoas que estão do lado perdedor de uma guerra civil.

Depois de cinco anos afastado da televisão, Whedon junta novamente sua criatividade e filosofia e estréia a série Dollhouse. Agora a pergunta é: “E se houvesse uma tecnologia capaz de apagar apersonalidade de uma pessoa e trocá-la por outra?” No novo mundo de Whedon existe. A trama gira em torno da ativa Echo (ativos são pessoas que tem suas personalidades apagadas e são “reimprimidos” com novas personalidades para realizarem as mais diferentes missões), que conforme os episódios vão passando, é provado que há muito mais por trás daquela aparente boneca vazia.

Na série da caça-vampiros, existia o chamado “monstro da semana”. Isso envolvia um novo demônio a cada episódio, enquanto uma trama maior era desenvolvida em segundo plano. Em Dollhouse acontece a mesma coisa. A cada episódio, Echo recebe uma nova personalidade e missão, sempre desenvolvendo um arco maior no pano de fundo.

Joss Whedon adora o tema de ambigüidade e Dollhouse explora bastante esse assunto, debatendo sempre se é correto ou não dar às pessoas o que elas precisam usando os ativos.

Talvez por ser filho de dois grandes roteiristas se sitcoms, o criador da série sempre acha um jeito de colocar humor dentro da história, seja por personagens naturalmente mais cômicos ou por situações impostas.

Entre todas as similaridades com as séries passadas, a maior delas é a protagonista de Dollhouse: Eliza Dushku. Os fãs mais antigos de Whedon a conhecem como a caça vampiros Faith, quefez parte de Buffy a partir da terceira temporada da série (e participações especiais em Angel). Mas Dushku não é o único nome conhecido. Amy Acker (Fred, de Angel) faz parte do elenco secundário, Felicia Day (Vi, da última temporada de Buffy) participa do último episódio do seriado e Summer Glau (River Tam, de Firefly) que irá fazer uma participação na segunda temporada.

Quando Buffy estreiou, ela teve apenas 12 episódios, e Dollhouse não fica longe disso. A nova série possui uma primeira temporada de 13 episódios, com um final de temporada fantástico, lembrando o universo de Firefly.